As mudanças na estrutura
etária brasileira, ainda em curso, têm evidenciado o processo de envelhecimento
populacional, promovendo um aumento da participação do número de idosos na
população, o que repercute também na ampliação do número e da proporção de
eleitores na faixa dos 60 anos e mais. Os dados do Tribunal Superior Eleitoral
-TSE apontam um forte crescimento do eleitorado idoso, cerca de 30%, nos
últimos 10 anos. Segundos dados (TSE) de 2022, os idosos representam 21 % dos
eleitores, sendo 55 % desses eleitores femininos, enquanto o voto dos jovens
(16 a 24 anos) representa 13,7 % do total de eleitores no país. Essa realidade
nos induz a refletir brevemente sobre algumas questões que envolvem essa
transição etária no eleitorado e a importância crescente dos idosos nas
eleições.
Entre as questões que se deseja chamar atenção, está a força do chamado voto grisalho, não somente a partir do exercício dos seus direitos políticos, o que pode influenciar nos resultados eleitorais, especialmente quando observamos que aqueles que mesmo não sendo mais obrigados a votar, isto é, 70 anos ou mais, seguem participantes e ativos no processo eleitoral, mas também a partir da importância que uma possível mobilização desse eleitorado pode representar para instar os candidatos a incluírem em seus planos de governo, políticas voltadas a melhoria da qualidade de vida para pessoas idosas.
A partir dessa possível mobilização
e organização dos idosos, é provável que se possa potencializar debates, ouvir
demandas, compreender melhor expectativas e necessidades desse grupo etário e
partir de aí comparar ou aderir a propostas, programas e candidatos, dentro do
processo eleitoral. Isso pode ser particularmente mais efetivo, quando se trata
de eleições municipais, como as que teremos esse ano no país, posto que é no
município onde concretamente as demandas estão evidenciadas e onde as pessoas
exercem de maneira mais perceptível a cidadania. A força do voto grisalho é
também significativa, porque os idosos tendem a votar em proporções mais altas
do que outras faixas etárias, isso significa que seus votos têm um peso ainda
maior nas eleições.
No entanto, vale destacar que o voto grisalho
não é homogêneo em termos de preferências não só políticas, mas também de interesses.
Os idosos são um grupo diversificado e podem ter opiniões variadas sobre uma
ampla gama de questões. Além disso, a influência política dos idosos pode
variar de acordo com o contexto político e social no qual está inserido. Nesse
sentido, é fundamental que os eleitores idosos reconheçam, essa diversidade e
busquem apresentar interesses comuns a todos os idosos e não apenas de um nicho
específico. Esse aspecto deve ser reforçado (trabalhado) no contexto de uma
possível mobilização política.
Verifica-se que é necessário
ampliar a consciência do eleitor idoso a respeito dessa força e é a partir
principalmente dos movimentos da sociedade civil e grupos de interesses que trabalham
voltados para defesa dos direitos dos idosos que isso pode ser potencializado,
de modo que sejam incentivados a se organizarem e apresentarem propostas aos
candidatos. Com isso se espera que a temática da população idosa seja apreciada
nos debates eleitorais públicos. Um exemplo desse tipo de iniciativa, foi feito
pelo movimento “Velhices Cidadãs” na Carta
Manifesto aos Partidos e aos Candidatos Elegíveis, que, na eleição passada, reivindicou e manifestou
propostas de políticas públicas para uma velhice digna e inclusiva.
Outra questão que pode ser
relacionada ao crescimento do eleitorado idoso é a da representação política da
pessoa idosa. BENITO (2009) chama atenção sobre essa realidade e questiona: “as
pessoas idosas estão perdendo poder na direção das sociedades modernas?”
Para esse autor “nas
sociedades industriais modernas a gerontocracia entra em declínio”. Segundo o
estudo desenvolvido pelo autor, sua conclusão aponta para redução da
representação política da pessoa idosa, nos pleitos por ele analisados (1994 a
2006) com perda de hegemonia nas esferas políticas nacionais no Brasil
(Benedito, 2009 p.110).
Historicamente, as
sociedades tradicionais respeitavam e buscavam a sabedoria dos mais velhos. No
entanto, nas sociedades modernas, a dinâmica do poder político está mudando,
tendo em conta a situação dos idosos (enquanto grupo etário) em especial diante
de uma situação de desfavorecimento educacional, tecnológico e financeiro. Na
sociedade capitalista os idosos encontram dificuldades para o exercício pleno e
eficiente de sua cidadania, em que pese os vários mecanismos que se propõe a
inclusão da pessoa idosa na sociedade. Como observa DOLL, J., ET
AL (2007) “a situação se torna menos
favorável para o status do idoso nas sociedades que valorizam fortemente o
trabalho, o individualismo, a igualdade e onde existe um culto à juventude” .
Em alguns países,
observa-se uma tendência de liderança mais jovem, com figuras políticas mais
jovens ganhando destaque. Apesar disso, muitos líderes mundiais ainda são de
idade avançada, a exemplo, líderes como Joe Biden nos Estados Unidos, Putin na
Rússia e Lula no Brasil, além de outros líderes em diferentes países que mantêm
posições de poder, mesmo sendo idosos. Isto revela que os idosos ainda
conseguem manter algum grau de influência política significativa. Todavia, o
perfil de poder é de idosos que começaram suas carreiras políticas, antes dos
60 anos, ou seja, tem uma história política pregressa e a continuidade está
presente. Vale destacar ainda, que embora as mulheres tenham ganhado espaço, “o
perfil dos eleitos é masculino e de pessoas com
mais escolaridade e casados” (Benito, 2009 p.110). Como se observa, há indícios
de que os idosos (enquanto grupo etário) enfrentam desafios em manter o nível
de poder e influência, especialmente em áreas fortemente influenciadas pela
tecnologia e mudanças culturais.
Adaptar-se a essas
mudanças e encontrar formas de integrar a sabedoria e experiência dos idosos
nas sociedades modernas é crucial para um desenvolvimento equilibrado e
inclusivo.
Um outro aspecto, da
força do voto grisalho é o que diz respeito ao voto conservador, hoje presente
de maneira importante nas sociedades modernas. Segundo Wattenberg, Martin P.
(2012) analisando sobretudo, a política estadounidense em seu trabalho "Is
Voting for Young People?” o mesmo aponta que o envelhecimento da população pode
afetar as tendências eleitorais, incluindo uma tendência maior para o
conservadorismo entre os eleitores mais velhos. Vale destacar, que esse é um
fenômeno complexo que surge de uma variedade de fatores sociais, econômicos,
culturais e políticos, entretanto, ressalta-se que o aumento do número de
eleitores idosos pode contribuir para o crescimento do apoio a candidatos ou
partidos com plataformas políticas conservadoras, embora seja apenas um fator
entre muitos que influenciam os resultados eleitorais, sabe-se que o voto dos
idosos tem maior propensão ao conservadorismo.
Entre as mais diversas
explicações para esse aspecto do voto dos mais velhos, está o fato de que pessoas
mais velhas geralmente têm uma perspectiva de vida moldada por experiências
passadas, incluindo períodos de estabilidade e mudança. Isso pode levá-las a
valorizar políticas que promovam a segurança econômica e social, o que muitas
vezes está associado a ideias conservadoras. Ademais, muitos idosos têm valores
conservadores enraizados, seja por razões culturais, religiosas ou sociais e
tem receio ou aversão a mudanças rápidas na sociedade ou na política, o que
contribui para tendência do voto conservador. Segundo da Costa Dourado, S. P.,
& Almeida, C. (2014) “os idosos mostram algumas diferenças com relação aos
jovens, revelando posturas mais conservadoras em relação ao seu envolvimento
com o mundo da política e às formas de participação”.
Nessa direção se observa
que a nova realidade demográfica, que inclui um processo de envelhecimento
populacional, associada a crises políticas e económico-social que se tem
vivenciado, expõe um certo mal-estar ao não atender, de modo geral, as
expectativas e interesses de grande parte da população. Com isso apressa-se o
surgimento de novos papéis, por parte dos diferentes atores sociais, que
incorporam novas práticas e estratégias de participação política.
Neste contexto, a
conjuntura contemporânea, traz à tona novos significados e sentidos ao grupo de
60 anos e mais, que contempla uma importância crescente e de certa maneira
inédita, dos idosos no processo eleitoral. O voto grisalho potencialmente pode
desempenhar, diante do seu peso eleitoral crescente, significativo papel no
futuro de sistemas democráticos, o que coloca a relevância esta temática para investigações
aprofundadas. De modo geral, como apontado no texto, a participação política
dos idosos, no exercício do voto, tem sido significativa, entretanto é
necessário ainda averiguar se essa participação política dos idosos, se expandirá
para outras modalidades, como na inserção partidária, na representação política
ou mesmo em participação não institucionalizadas, temas que podem ser
aprofundados em pesquisas futuras.
Referências bibliográficas
BENITO, Linconl Agudo Oliveira. Senior candidates, capitalism and democracy: achieved results on national elections of 1994, 1998, 2002 and 2006. 2009. 250 f. Dissertação (Mestrado em Ciências da Saúde) - Universidade Católica de Brasília, Brasília, 2009.
DA COSTA Dourado, S. P.,
& ALMEIDA, C. A juventude pensada a partir do envelhecimento: demografia e
comportamento político dos grupos geracionais Sociedade e Cultura, vol. 17,
núm. 1, 2014, pp. 63-73
DOLL, J., ET
AL. Atividade,
desengajamento,
modernização: teorias sociológicas clássicas sobre o
envelhecimento. Estud. Interdiscip. Envelhec., Porto Alegre, 12, 2007, pp. 7-33.
WATTENBERG, Martin.
Is Voting for Young People? https://books.google.com.br/books?id=7D9qzgAACAAJ.
Pearson, 2012.
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