Neilson
Santos Meneses*
Uma das
tendências da família moderna é a redução do seu tamanho, inclusive essa rápida
e continua diminuição do tamanho das famílias brasileiras, vem sendo apontada
por vários estudos e levantamentos que associam essa realidade, entre outros
fatores, a queda acentuada da fecundidade. Porém, além da redução do tamanho,
os dados estatísticos revelam mudanças na composição das famílias com o
crescimento de famílias unipessoais, que em Sergipe, seguindo uma tendência
brasileira, cresceu de forma acelerada nas últimas décadas.
Segundo dados dos censos demográficos do IBGE entre 1991 e 2022, houve um aumento do número de “solitários”, isto é, do número de domicílios com um só morador em Sergipe, da ordem de 274,3 %. Só nos últimos doze anos, verificou-se que o número de domicílios com um só morador no estado cresceu 117,9%, passando de 67 mil domicílios para mais de 146 mil, representando atualmente 18,6 % dos domicílios sergipanos.
Esses dados revelam que o domicílio com apenas um morador, se expande
mais rapidamente que os demais tipos e que engloba situações especificas de
gênero, idade, renda e escolaridade, que não serão abordadas aqui neste texto
devido limitação do espaço.
Em geral, as hipóteses que explicam esse fenômeno, associam o
crescimento do número de solitários ao contexto da civilização contemporânea
marcado entre outras coisas, pela urbanização contínua, por transformações no
mundo do trabalho, pela ampliação do uso de novas tecnologias, por mudanças nas
relações de gênero, por transformações culturais (que geram práticas sociais
transgressoras dos padrões ditos naturais), pela exacerbação do individualismo,
pelo capitalismo globalizado e por mudanças no estilo de vida, com a
valorização da independência e da autonomia individual que leva muitas pessoas
a optarem por morar sozinhas. Há uma maior aceitação social do estilo de vida
solteiro, especialmente nas grandes cidades, onde a individualidade é mais
incentivada.
Como diz Singly (2000) a família contemporânea é ao mesmo tempo e
paradoxalmente relacional e individualista. Nesta direção Simionato e Oliveira
(2003) indicam que a família se transforma em espaço privado a serviço dos
indivíduos. Consideram que a família do século XXI é pós-moderna ou pluralista
devido aos diversos tipos de convivência que apresenta, ou seja, ela é mais
heterogênea e diversificada.
Além desses fatores, o aumento no número de solitários está associado
também: ao envelhecimento populacional (a maior parte dos domicílios
unipessoais é ocupada por idosos), a maior emancipação da mulher (o que está
relacionado ao aumento da participação feminina no mercado de trabalho e na
escolarização), ao aumento das taxas de divórcio, aumento relativo dos não
casamentos, aumento da renda per capta e aumento de individualização dos
jovens.
Essas transformações tem tido significativo impacto, por exemplo, no
mercado imobiliário, onde tem aumentado à oferta de apartamentos menores. Há
impactos também nos hábitos de consumo, os consumidores independentes formam um
nicho de mercado atraente e em expansão que contratam, por exemplo, serviços
específicos que tragam praticidade, como serviços de pronta entrega, serviços
de internet, refeições fora de casa e nos fast foods, diaristas, além de
produtos que tenham multifuncionalidade.
Outros impactos podem ser notados nas estruturas urbanas, já que o
crescimento dos domicílios (devido inclusive ao aumento de domicílios
unipessoais) é superior ao da população total, o que implica em aumento da área
urbanizada. Domicílios menores demandam maior número de domicílios, um espaço
maior será ocupado pelas cidades o que já nos leva a outro impacto, o
ambiental.
Por fim, vale ressaltar que conhecer as transformações nas famílias é de
grande importância para caracterizar a vida da maioria das pessoas e para
conceber políticas públicas especificas a exemplo das de planejamento urbano.
*Professor do Departamento de Geografia e Coordenador do Núcleo de
Pesquisa da Terceira Idade – NUPATI/UFS.
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